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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

CONVERSAS DE PÁTIO DE ESCOLA

Como é bom sentar no pátio da escola e ouvir os alunos! Surge sempre aquela conversa informal sobre a rotina ou novidades. É interessante! Aí se ouve dizer que fulano é o melhor professor, que sicrano é o pior; e tem o jovem que começa a olhar para a jovem no intuito de se aproximar para conhecê-la melhor. Depois vêm outros olhares, o próximo encontro. Também se ouve falar sobre a merenda, sobre o cardápio que é mais gostoso (salada de frutas, cachorro-quente, vaca atolada, sopa...), sobre os jogos interclasses, comentam ainda sobre a cola que compartilharam na prova, entre outros assuntos. Entre um "sobre" e "outro" constroem seus sonhos.

Assim, em meio a diferentes gostos, mais um dia letivo foi cumprido. Chega a hora de retornar para casa, e vai junto o desejo de voltar no dia seguinte para viver novas emoções na aprendizagem, novas experiências, além de formar novas amizades. 

Muitos relacionamentos amorosos começam na escola. Se o pátio falasse! Já presenciou diversas cenas durante muito tempo; ouviu reclamações, gritos, músicas, choro, confusão, brigas...

Conheço casais que foram meus alunos e estudavam na mesma sala de aula quando começaram o "love". Acompanhei casos de Romeu e Julieta dentro e fora da escola, porque em sua maioria os pais não permitiram por considerarem cedo, uma vez que deveriam se preocupar com o estudo. O amor venceu esses desafios; tornaram-se pais de alunos que frequentam o mesmo ambiente em que viveram esses belos anos, onde tudo girava em torno das batidas fortes do coração, das mãos frias, da voz engasgada e do perfume que exalavam, até se unirem e formarem uma família. 

Será que alguém tem dúvida que a história se repeteNo meu caso, só admirei o príncipe encantado, o romance nunca se concretizou, ficou no modo platônico. Hoje posso rir do passado e ver que foi engraçado, mas é uma situação igual a de tantas pessoas, afinal se repete, e podemos dizer que o amor é um dos adubos da vida. 

Dá para escrever um lindo Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com este tema, cujas palavras-chave podem ser: escola, amor, pátio. Termino aqui deixando um gostinho de quero mais para que outros se identifiquem e continuem essa crônica. Acredito que enquanto houver pátio de escola haverá assunto para se registrar, porque é local de gente que se encontra, se olha, se abraça e caminha unida pela mesma voz interior, a do coração, porque amor não morre, floresce e frutifica.


domingo, 29 de março de 2015

QUERO VOLTAR A CONFIAR! (TEXTO DE ARNALDO JABOR)

Fui criado com princípios morais comuns: Quando eu era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos, eram autoridades dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder de forma mal educada aos mais velhos, professores ou autoridades… Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do bairro, ou da cidade… Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror…
Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo o que meus netos um dia enfrentarão. Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem em tudo significa ser idiota. Pagar dívidas em dia é ser tonto… Anistia para corruptos e sonegadores…
O que aconteceu conosco? Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. Que valores são esses? Automóveis que valem mais que abraços, filhas querendo uma cirurgia como presente por passar de ano. Celulares nas mochilas de crianças. O que vais querer em troca de um abraço? A diversão vale mais que um diploma. Uma tela gigante vale mais que uma boa conversa. Mais vale uma maquiagem que um sorvete. Mais vale parecer do que ser… Quando foi que tudo desapareceu ou se tornou ridículo? 
Quero arrancar as grades da minha janela para poder tocar as flores! Quero me sentar na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de verão! Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a vergonha na cara e a solidariedade. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olhar olho-no-olho. Quero a esperança, a alegria, a confiança! Quero calar a boca de quem diz: “temos que estar ao nível de…”, ao falar de uma pessoa. Abaixo o “TER”, viva o “SER”. E viva o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como um céu de primavera, leve como a brisa da manhã! 
E definitivamente bela, como cada amanhecer. Quero ter de volta o meu mundo simples e comum. Onde existam amor, solidariedade e fraternidade como bases. Vamos voltar a ser “gente”. Construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas. Utopia? Quem sabe?... Precisamos tentar… Quem sabe comecemos a caminhar transmitindo essa mensagem… Nossos filhos merecem e nossos netos certamente nos agradecerão!


quinta-feira, 19 de março de 2015

AMIGOS INVISÍVEIS (TEXTO DE FABRÍCIO CARPINEJAR)

Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis. Aqueles que não estão perto, mas sempre estão atentos.
Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades, mas continuam meus amigos.
Eles me ajudaram no momento em que eu precisava e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados.
São para toda a vida, ainda que não estejam comigo a vida inteira.
Quando me encontro com eles, a intimidade é refeita já no abraço.
É possível ficar semanas, meses, anos longe desse amigo, mas nunca perderemos a cumplicidade.
Não vou mentir "vamos combinar algo?" num esbarrão de rua. Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.
Confundimos amizade com onipresença.
Amigo não é bater o cartão, mas o que resume nossa trajetória em poucas palavras.
Amigo não é o que liga diariamente, mas aquele que você pode telefonar de repente, de madrugada, sem explicar nada.
A proximidade afetiva é mais importante do que a proximidade física.
Amigo mesmo demora a ser descoberto. Sua permanência depende de seus conselhos.
Amigo mesmo é um irmão que também foi nosso pai e nossa mãe.
Amigo mesmo é tão raro quanto o amor.
Teremos um ou dois ou três em nossa longa estrada.
Amigo mesmo não é o que bebe junto, é o que permanece ao nosso lado depois da ressaca.

(Postado no Facebook em 05/04/2013)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

domingo, 31 de agosto de 2014

NADA COMO A INSTRUÇÃO - "Rico estuda cinco anos mais." (CRÔNICA DE MOACYR SCLIAR)

               O senhor não me arranja um trocado?, perguntou o esfarrapado garoto com um olhar súplice. Outro daria o dinheiro ou seguiria adiante. Não ele. Não perderia aquela oportunidade de ensinar a um indigente uma lição preciosa:
              _Não, jovem - respondeu -, não vou lhe dar dinheiro. Vou lhe dar uma coisa melhor do que dinheiro. Vou lhe transmitir um ensinamento. Olhe para você, olhe para mim. Você é pobre, você anda descalço, você decerto não tem o que comer. Eu estou bem vestido, moro bem, como bem. Você deve estar achando que isso é obra do destino. Pois não é. Sabe qual é a diferença entre nós, filho? O estudo. As estatísticas estão aí: Pobre estuda cinco anos menos do que o rico.
              O menino olhava, assombrado. Ele continuou:
             _ Pessoas como eu estudaram mais. Em média, cinco anos mais. Ou seja: passamos cinco anos a mais em cima dos livros. Cinco anos sem nos divertir, cinco anos queimando pestanas, cinco anos sofrendo na véspera dos exames. E sabe por quê, filho? Porque queríamos aprender. Aprender coisas como o teorema de Pitágoras. Você sabe o que é o teorema de Pitágoras? Não, seguramente você não sabe o que é o teorema de Pitágoras. Se você soubesse, eu não só lhe daria um trocado, eu lhe daria muito dinheiro, como homenagem a seu conhecimento. Mas você não sabe o que é o teorema de Pitágoras, sabe?
            _ Não - disse o menino. E virando as costas foi embora.
            Com o que ele ficou muito ofendido. O rapaz simplesmente não queria saber nada acerca do teorema de Pitágoras. Aliás - como era mesmo, o tal teorema? Era algo como o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Ou: o quadrado do cateto é a soma dos quadrados da hipotenusa. Ou ainda, a hipotenusa dos quadrados é a soma dos catetos quadrados. Algo assim. Algo que só aqueles que têm cinco anos a mais de estudo conhecem.

(Moacyr Scliar. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2001. p 25-6.)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

CRÔNICA - A TURMA (TEXTO DE DOMINGOS PELLEGRINI)

Eu também já tive turma, ou melhor, fiz parte de turma e sei como é importante em certa idade essa entidade, a turma.

A gente é um ser racional, menos quando em turma. Existe, por exemplo, alguma razão para um grupo de pessoas sentar todo dia numa escadaria ou meio-fio e passar horas conversando?

Você pode falar a um filho, por exemplo, que refrigerantes engordam e chocolates dão mais espinhas em quem já tá na idade das espinhas. Ele nem ouvirá. Mas, se um dia a turma resolver, ele passará a tomar só água com limão e pegará nojo de chocolate.

Você pode falar que cabelo tão comprido é incômodo, calorento, atrapalha, mas que nada, ele te pedirá dinheiro para comprar mais xampu. Agora, se a turma resolver cortar careca, ele aparecerá de repente careca no café da manhã e nem quererá falar do assunto - qual problemas em cortar careca?

Você pode dizer que bossa nova é bom, e mostrar jornais e revistas, provar que só "Garota de Ipanema" já recebeu centenas de gravações em todo o mundo, mas ele aumentará o volume do rock pauleira ou da tecno-bost. Até o dia em que alguém da turma aparece com um CD de bossa nova e ele troca Axel Rose por Tom Jobim de um dia para o outro.

A turma tem modas, como quando resolvem todos arregaçar as barras das calças, que usavam arrastando pelo chão.

A turma tem traumas, como quando o namoradinho de uma se apaixona pela namoradinha de outro e...

A turma tem linguagem própria, uma variante local de um ramal regional da vertente adolescente da língua.

A turma adora sentar na calçada e na praça e falar sobre o que viram em casa na televisão.

A turma tem duplas de amigos e amigas mais chegados, e trios, e quartetos, que num grande minueto anarquista se misturam nas festas de aniversário.

Ninguém da turma dança até que alguém da turma começa a dançar, aí dançam todos trocando de par até acabarem dançando todos juntos como turma que são.

Um da turma se tatua, todos da turma querem se tatuar.

Um bota uma argola no nariz, os outros, para variar, botam no lábio, na sobrancelha e na orelha e...

A turma é isso aí, cara, uma reunião diária de espinhas e inquietações, habilidades e temperamentos, o barulho das personalidades se misturando, o jogo das informações e dos sentimentos rolando nas conversas sem fim, nas andanças sem cansaço, nas músicas compartilhadas, no refri com três canudos e uma empadinha pra quatro.

Na turma pouco dá pra todos, todo mundo divide, cada um contribui, a turma se une partilhando e repartindo.

A turma ri como só na turma se ri.

A turma julga quando erramos.

A turma castiga com silêncio e ironias.

A turma te chama, te reprime, te libera, te revela, te rebela, te maltrata, te orgulha, te ama e te envolve, te afasta e te atrai, mas a turma é assim porque a turma é a turma.

Até o dia em que - disse a todos os meus filhos - cansamos de ter turma e passamos a ser gente. E todos me disseram que sou um chato, mas o primogênito hoje já concorda: o tempo da turma passa.

Mas, aqui entre nós, como dá saudade!


Fonte: PELLEGRINI, Domingos. Ladrão que rouba ladrão. São Paulo: Ática, 2002.(Para gostar de ler)

domingo, 18 de maio de 2014

CRÔNICA DA VIDA QUE PASSA (FERNANDO PESSOA)

Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.

A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes de sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, côa-as a lente da celebridade para suas espetaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.

Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de gênio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu gênio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade  é irreparável. Dela como do tempo, ninguém se torna atrás ou se desdiz.

E é por isso  que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos.

Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de gênio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos.

Fernando Pessoa. Páginas íntimas e de autointerpretação. Lisboa: Ática, s.d. p. 66-7.