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quarta-feira, 20 de março de 2024

BIOGRAFIA DO ORVALHO (POEMA DE MANOEL DE BARROS)

 A maior riqueza do homem é a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre

portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que

compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, 

que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. 

Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas.


BARROS, Manoel de. Retrato do artista quando coisa, 3 ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

NO DESCOMEÇO ERA O VERBO (TEXTO DE MANOEL DE BARROS)

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função do verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é voz de fazer 
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 1993.

sexta-feira, 16 de março de 2018

14 DE MARÇO - UM DOS DIAS DA POESIA

O chão reproduz
do mar
o chão para o mar
o chão reproduz
com o mar

O chão pare a árvore
pare o passarinho
pare a
rã - o chão
pare com a rã
o chão pare de rãs
e de passarinhos
o chão pare 
do mar

O chão viça o homem
no olho
do pássaro, viça
nas pernas
do lagarto 
e na pedra

Na pedra
o homem empeça
de colear
advém de lagarto
e não incorre em pássaro

Colear induz
para rã e caracol
Colear
sofre de borboleta
e prospera
para árvore
colear
prospera 
para o homem

O homem se arrasta
de árvore
escorre de caracol
nos vergéis
do poema

O homem se arrasta
de ostra
nas paredes
do mar

O homem
é recolhido com destroços
de ostras, traços de pássaros
surdos, comidos de mar

O homem 
se incrusta de árvore
na pedra, do mar.

Fonte: BARROS, Manoel de. Gramática Expositiva do Chão. Rio de JaneiroEd. Record, 2004, p.31-34. 
Também já foi publicado pela Ed. Civilização Brasileira (1990); Ed. Record (1999); Ed. Leya (2010);

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ÁRVORE

Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu, e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor
o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só presta para poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as
árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se
transformara, envaidecia-se quando era nomeada para
o entardecer dos pássaros.
E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos
brejos. Meu irmão agradeceu a Deus aquela
permanência em árvore porque fez amizade com muitas
borboletas.

BARROS, Manoel de. Ensaios fotográficos. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 394-395.